PERITOS OU TESTEMUNHAS? – HUMANIZAR O ESPÍRITO E ESPIRITUALIZAR O HUMANO: UM OLHAR FOCADO NA QUESTÃO DAS REFORMAS ATITUDINAIS NECESSÁRIAS PARA A PRÁTICA EM EDUCAR NA DIVERSIDADE
PAOLA, Jairo di [1]
RESUMO
Este artigo objeta inquietar e promover discussões nos mais variados níveis de consciência a uma sensibilização uniforme quando falamos sobre: Diversidade; Inclusão social; Inclusão Digital; Inclusão de alunos com “Distúrbios Neurológicos de Aprendizagem e Comportamento na Rede Pública de Ensino”; Inclusão de alunos com “Necessidades Educacionais Especiais” e “Deficiências”. Se for necessário reinventar – PROPOMOS fazer. Sabemos do longo caminho a ser percorrido, pois essa questão está impactada por décadas de abandono, os problemas ficaram mascarados no campo da ilusão e do sonho. Diante desse impasse, é comum fixarmos a mente apenas no campo da razão e deixarmos de enxergar a beleza que a educação na diversidade pode proporcionar. Não será difícil perceber, passados os primeiros impactos, que o nosso aluno pode ter sido – e será – um presente e também um grande desafio. Discutir esses caminhos e se possível fazer parte dele é o nosso convite. A metodologia adotada para este estudo foi a pesquisa de campo. Os sujeitos da pesquisa são professores e alunos de uma escola da rede estadual, situada no bairro de São Miguel Paulista.
Palavras-Chave: Inclusão. Alunos. Necessidades educativas especiais. Educação.
O modelo de “família nuclear” está definido no Webster's Dictionary (famoso dicionário de inglês) como “de ou formando um núcleo”, e a definição de “núcleo” como “parte central em torno da qual outras partes se agrupam; centro”. Temporariamente o modelo de família nuclear deixou de existir; isso pode ser observado nas últimas três décadas, quando visivelmente notamos vários outros formatos serem implantados na demografia familiar.
As pesquisadoras Mônica Cristina da Silva e Eguimar Felício Chaveiro, UFG - Goiânia – Brasil questionam: os laços consanguíneos dão conta de explicar os níveis de relação entre os sujeitos que definem a célula familiar?
Pais alcoólatras. Mães neuróticas e depressivas. Filhos desobedientes. Tios longínquos. Avós gagás, objetos de pena. Primos que causam vergonha. Conflito entre irmãos. Crise econômica. Separações iminentes – são essas as características centrais da família contemporânea? Além disso, quais são os novos objetos que povoam os lares das famílias brasileiras e que subjetividade adentra os corpos dos entes por meios desses objetos?A família grita. Fratura-se. Decompõe-se. Recompõe-se. Reinventa-se. Resiste e altera-se.
No século XIX, a família era objeto analítico do denominado planejamento familiar. A visão Neo-malthusiana considerava, relativamente, que o número populacional interferia no desenvolvimento do país. Sendo assim, o Estado interferia na taxa de fecundidade, com políticas restritivas com o objetivo de controle da natalidade.
O formato a seguir serviu de referência para vários governos no planejamento de suas ações na educação, na saúde, na habitação.
Figura 1: Família nuclear antigamente
Para Durham (1982, p. 32):
No Brasil, pode-se dizer que o Estado agiu no sentido de restringir o acesso às formas legais de família aos setores mais privilegiados da população. De modo geral a constituição da sociedade brasileira: tenta fortalecer o vínculo familiar das classes dominantes e dificultar os das classes pobres. Mas tem em comum a dominação do homem sobre a mulher.
Se as ações educativas forem verificadas em amostras estatísticas com margem de erro igual a zero, poderemos até constatar a ineficiência delas mais de perto, mas se continuarmos a direcionar os nossos olhos, os nossos estudos, as nossas pesquisas, mas principalmente as nossas práticas, nossa prática no sentido de gerar fatos – testemunhas, nos permitirmos vivenciar e exercitarmos todos os nossos sentidos, provermos o SENTIR, de fato EXPERENCIAR situações como TESTEMUNHAS, comprovaremos progressos das ações educativas. Se levarmos em conta nossas práticas dentro de uma unidade escolar, nas famílias, nos centros de compras coletivos, nas comunidades, bem como em qualquer espaço onde possa haver vidas humanas, poderemos já considerar algo de excepcional avanço e brevemente, numa cronologia histórica, poderemos erradicar a necessidade das pesquisas, dos programas de integração, inclusão, sociabilização etc. Os fatos falarão por si, de modo natural.
Os governos ainda se utilizam de dados estatísticos para angariar seus votos e assim manterem e até perpetuarem seus mandatos, e nós ainda sonhamos, geramos expectativas, no aguardo de uma ação bendita em resposta aos problemas constatados. Pode ser contraditório, mas essa situação tem feito parte do enredo na história da humanidade, e tem se tornado estratégia em nosso campo de trabalho para também realizar a nossa pesquisa.
O momento atual permite testemunhar a existência de verbas públicas e incentivos fiscais, dotações orçamentárias financeiras para a aquisição de matérias e equipamentos que irão viabilizar a prática profissional no exercício de nossas funções dentro uma unidade escolar, expandindo os centros de atendimentos e formação continuada.
Segundo pesquisas realizadas por nós – Jairo di Paola, autor deste artigo, e a fonoaudióloga Andréa Aparecida de Carvalho, são inúmeras as questões que emergem a respeito de alunos “diferentes” que estão nas salas de aula, tais como: “O que fazer?”, “Como apresentá-lo à classe?”, “O que falar para os pais?” etc. Geralmente, não é o aluno o problema, e sim a dificuldade dos pais. Alguns não aceitam seus filhos como alunos com necessidades educacionais especiais e, por outro lado, muitos não aceitam seus filhos “normais” ao lado de alunos com deficiências.
Há necessidade de um treinamento para o professor, para ajudá-lo a contornar situações difíceis em salas de aula, desenvolvendo sua competência como facilitador e conscientizar-se do seu papel como agente de transformação.
A política de inclusão de alunos que apresentam necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino não consiste apenas na permanência física desses alunos junto aos demais educandos, mas representa a ousadia de rever concepções e paradigmas, bem como desenvolver o potencial dessas pessoas, respeitando suas diferenças e atendendo a suas necessidades.
Dessa forma, não é o aluno que se amolda ou se adapta à escola, mas é ela que, consciente de sua função, coloca-se à disposição dele, tornando-se um espaço inclusivo. Uma classe comum, na qual esteja representada a diversidade da vida humana, os diferentes tipos de inteligência, a riqueza de variadas habilidades e, até mesmo, o conflito de valores, certamente propicia a formação de alunos mais bem preparados para aprimorar a democracia, contribuir para a formação de uma sociedade mais justa.
Temos de levar em consideração o envolvimento pessoal de cada indivíduo, pois, na educação inclusiva, todos deverão aprender a conviver com as diferenças, mesmo sabendo que estamos numa sociedade presa aos preconceitos, aos estereótipos, cheia de complexos e que essas características foram individualmente e culturalmente construídas.
Deveremos saber nos adaptar. Esse é o grande desafio; já que por essência somos todos iguais, constituídos de corpo e mente, compartilhamos este vínculo, o vínculo humano, já suficiente para que possamos nos olhar através das diferenças e nos comunicarmos, trocarmos experiências com facilidade.
Aceitar diferenças envolve amor e vida. A vida está ligada à ordem e não existe sem troca; ela busca, independentemente das nossas vontades, a evolução.
O pensamento deve ser global, mas o agir deve ser local, atuando sem interferir. Temos padrões de interferência, princípios de empatia, só que toda mudança começa em nós mesmos e devemos ter a esperança de que podemos cada vez mais humanizar o espírito e espiritualizar o humano. É a ação que nos liga à realidade, não só o pensamento, mas o ato.
Na educação inclusiva ou em qualquer outro tipo de educação ou situação, todo adulto que se depara com uma criança é um educador, independentemente da profissão, pois é interagindo com o meio que todo conhecimento é construído socialmente no âmbito das relações humanas. Às vezes, um obstáculo mostra-nos o verdadeiro caminho, pois as dificuldades é que dão origem à nossa história. Ter consciência dessas ambiguidades é o segredo do sucesso da empreitada a que o educador se propõe.
Não podemos nos esquecer que jamais trabalhamos em cima das dificuldades e, sim, preparamos o indivíduo para vencê-las, buscando novos conhecimentos, avaliando cada indivíduo conforme o potencial do seu próprio ser constituinte, favorecendo as diversas formas de comunicação e apoiando a individualidade de cada um na solução de problemas.
É vital o indivíduo sentir-se incluído na sociedade. E nós, profissionais de educação, somos responsáveis pela organização e provimento dessas estratégias, mesmo que os recursos sejam limitados. Agindo com coerência e constância, educar será uma consequência lógica.
Não é fácil, mas não desanimem! Podemos optar pelo reencantamento em nossas aulas, em nossas intervenções.
Durham (2005) apresenta o seguinte questionamento: Será que ser educador é ainda uma opção de vida entusiasmante? Dá para falar em reencantamento da educação sem passar por ingênuo? No mundo de hoje, a privação da educação é uma causa mortis inegável. Ninguém encontra lugar ao sol na sociedade do conhecimento sem flexibilidade adaptativa. O mundo está se transformando numa trama complexa de sistemas aprendentes.
Reencantar a educação significa colocar a ênfase numa visão da ação
educativa como ensejamento e produção de experiências de aprendizagem.
educativa como ensejamento e produção de experiências de aprendizagem.
A vida “se gosta”. Por isso os educadores deveriam analisar de que forma a
vida dos alunos é uma vida concreta que, em seu mais profundo dinamismo vital e cognitivo, sempre gostou de si, ou ao menos tentou e volta a tentar gostar de si. A não ser que a própria educação cometa o crime de anular essa dinâmica vital de desejos de vida, transformando os aprendentes em meros receptáculos instrucionais, pensando apenas na “transmissão de conhecimentos” supostamente já prontos.
vida dos alunos é uma vida concreta que, em seu mais profundo dinamismo vital e cognitivo, sempre gostou de si, ou ao menos tentou e volta a tentar gostar de si. A não ser que a própria educação cometa o crime de anular essa dinâmica vital de desejos de vida, transformando os aprendentes em meros receptáculos instrucionais, pensando apenas na “transmissão de conhecimentos” supostamente já prontos.
Dentro dessa perspectiva, a atenção à morfogênese (surgimento das formas)
do conhecimento nos conduz a temas como os seguintes:
do conhecimento nos conduz a temas como os seguintes:
• Aprender é um processo criativo que se auto-organiza.
• Todo conhecimento tem uma inscrição corporal do conhecimento.
• Dinâmica da vida e dinâmica do conhecimento estão unidas.
• O prazer como dinamizador do conhecimento.
• Urge curar e reflexibilizar as linguagens pedagógicas.
Com as transformações que vêm ocorrendo no mundo (tecnologias, globalização, transição de produtos e do próprio trabalhador), a necessidade de novas propostas pedagógicas e uma reforma educacional coesa é imperativa. É imprescindível que a escola acompanhe todas essas transformações e inove-se, não é mais possível continuar com aulas maçantes, reprodutoras, quadro-negro e giz.
Este é o momento de repensar a educação em si e, a partir daí, criar dispositivos que possibilitem um novo olhar, onde todas as áreas do conhecimento possam trabalhar questões pertinentes para uma construção do conhecimento significativa, mais humana, mais digna, embasada no princípio de igualdade, fraternidade, liberdade, respeito ao outro.
Nesse sentido, podemos fazer uma análise crítica em relação a todo o processo de mudanças pelo qual o mundo está passando e o consequente bombardeamento de informações que o homem recebe cotidianamente. Na verdade, o mundo contemporâneo – neste momento da história denominada ora de sociedade pós-moderna, pós-industrial ou pós-mercantil, ora de modernidade tardia – está marcado pelos avanços na comunicação e na informática e por outras tantas transformações tecnológicas e científicas. Essas transformações intervêm nas esferas da vida social, provocando mudanças econômicas, sociais, políticas, culturais, afetando também as escolas e o exercício profissional da docência.
Para que haja um novo posicionamento, é imprescindível que o professor tenha profissionalismo, tenha comprometimento, seja capaz de aprender a aprender, tenha domínio de sua disciplina, seja autônomo e desenvolva um trabalho pertinente à realidade do aluno. Mas, principalmente, que seja crítico e reflexivo, tenha condições de pensar e repensar sua prática, buscando novos caminhos para solucionar problemas. Enfim, que tenha coerência entre discurso e prática.
Desse modo, possibilitará seu desenvolvimento pessoal e profissional, dará oportunidade ao aluno para ampliar o leque de conhecimento, ser um agente transformador da realidade, tendo coesão em sua interpretação de mundo, aprendendo a pensar certo, saber fazer, ser competente na prática social.
Assim sendo, é urgente um repensar consciente sobre a formação do professor. Isto é, para formar cidadãos críticos, transformadores, é preciso ter uma formação inicial e continuada, com projetos de intercâmbio entre universidades e escolas, com pesquisas voltadas para a realidade de sala de aula, que haja políticas educacionais sérias, que estejam concomitantes com a realidade. Ou seja, que visem à qualidade do ensino, à valorização do professor.
Hoje o professor necessita de uma ação pedagógica diferenciada, pois ele é história, faz parte da história, não é um consumidor que vai à escola, aprende e passa. Por isso, a importância de trabalhar com a questão dos “portadores do saber”, que têm um legado cultural para deixar às próximas gerações, que estão diante de grandes modificações em todos os segmentos sociais, inclusive a escola, que é mais um dos espaços para aprendizagem. Assim, entende-se que é local para síntese, para desenvolvimento de habilidades, para formar sujeitos críticos e pensantes, integrados ao pensar epistêmico.
Com relação ao aluno crítico e transformador da realidade, a formação do professor requer questionamentos pertinentes. O sociólogo Alain Touraine (1995), propõe algumas ideias para uma proposta de esquerda no quadro das transformações em curso na sociedade, tais como a internacionalização da economia, desenvolvimento acelerado das novas tecnologias, agravamento da exclusão social, ruptura do tecido social, aumento das desigualdades.
Isso, segundo Alain Touraine (1995), inicia-se pela solidariedade, que significa estar ao lado dos excluídos e combater os efeitos das desigualdades sociais por meio de medidas concretas em favor dos desfavorecidos. Vem, em seguida, com a ideia de liberdade do sujeito, o direito dos indivíduos de viverem e serem reconhecidos como sujeitos, capazes de fazer opções e respeitar os outros.
A terceira ideia é a de criar a diversidade no sentido de reconhecimento do outro, para ver em cada indivíduo a presença do universal e, simultaneamente, a do particular. É descobrir nos outros o esforço de subjetivação, de se constituírem como sujeitos na sua individualidade e na identidade cultural que é, afinal, o reconhecimento dos direitos humanos fundamentais.
A quarta ideia é saber conviver com as diferenças, “fazer conviver, sob as mesmas leis, pessoas com crenças, concepções de vida e interesses diferentes” (TOURAINE, 1995, p. 193), incluindo a recusa em encaixar as pessoas em modelos culturais herdados da modernidade.
O tratamento da questão da ética na escola ainda depende de investigações mais consolidadas. Hoje, para os educadores, o desafio que se coloca é o de ajudar os alunos nos problemas morais, tais como a luta pela vida, a solidariedade, a democracia, a justiça, a convivência com as diferenças, o direito de todos à felicidade e à autorrealização.
CÉREBROS MODERNOS
Há poucas décadas, uma “geração” compreendia um período de trinta anos, e nesse caso, era possível utilizarmos as mesmas técnicas dentro de uma sala de aula, por um período maior. Uma “geração” depois passou para dezessete anos, depois onze anos, depois nove anos e agora a cada cinco anos temos uma nova “geração”, inclusive genética.
Portanto, em razão das várias transformações mundiais, somadas à desigualdade social, da desvalorização do magistério, é uma exigência para a profissão de Professor que ele esteja inserido nas Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (NTCI), podendo utilizar todos os meios de comunicação para inovar as suas aulas e, principalmente, auxiliar o aluno no entendimento das mídias e das multimídias, tendo o papel de orientador quanto à formação de opinião.
É possível então afirmar que não há proposta pedagógica e de reforma educacional sem o professor. A informática, por exemplo, é mais um instrumento para a aprendizagem, sendo o professor o seu executor, que irá possibilitar ao aluno uma nova visão de mundo por esse mecanismo, ampliando a capacidade dele de entendimento, podendo construir uma concepção diferenciada em relação ao modo de operacionalizar, ou seja, ensinar o educando a pesquisar e a adquirir competências em várias áreas do saber.
Assim, fica claro e notório que o computador não tem como finalidade substituir o professor, mas ser mais um meio para chegar ao proposto, seja de informação, comunicação, divertimento ou qualquer outro objetivo que queira ser alcançado. Esta é a proposta para um olhar diferenciado frente às transformações mundiais que afetam toda a sociedade e, em decorrência, a escola.
Junto à instituição escolar, também são postas em questão as práticas convencionais de ensino e de aprendizagem. A “tecnologização” do ensino incentiva a crença de que o computador e outras mídias podem substituir a relação pedagógica convencional. Cria-se, com isso, a ilusão tecno-informacional de que é possível a aprendizagem completa apenas com a presença do aluno diante dos equipamentos informáticos. Naturalmente, não se trata de resistir à utilização das mídias no ensino, mas de denunciar a exclusão do professor e de outras mediações relacionais e cognitivas no processo de aprendizagem.
A substituição da relação docente está obviamente associada a determinados paradigmas de qualidade da educação em que importaria mais o saber fazer e o saber usar do que uma formação cultural sólida. Ou seja, o pensar eficientemente é uma questão de “saber como se faz algo”. A aprendizagem não é mais do que o domínio de comportamento prático que transforma o aluno num sujeito competente em técnicas e habilidades.
Entretanto, descaracterizar o sentido da aprendizagem escolar em decorrência da presença das inovações tecnológicas é obviamente um equívoco. O valor da aprendizagem escolar está, precisamente, em introduzir os alunos nos significados da cultura e da ciência por meio de mediações cognitivas e interacionais que supõem a relação docente. Por outro lado, a prática docente atual recebe o impacto das novas tecnologias da comunicação e da informação, provocando uma reviravolta nos modos mais convencionais de educar e ensinar.
O profissional de educação acredita que a formação cultural básica é o suporte da formação tecnológica. Ou seja, a utilização pedagógica das tecnologias da informação pode trazer efeitos cognitivos relevantes, estes, porém, não podem ser atribuídos somente a essas tecnologias.
É certo que, independentemente das transições econômicas, sociais, políticas, religiosas, é inadiável ser coerente quanto às decisões, às formas de resoluções de problemas, aos questionamentos, ao modo de encarar a profissão professor, pois para se ter profissionalismo é primordial ter responsabilidade e comprometimento com a educação em si.
Afinal, a exigência social no contexto atual é proporcionar ao aluno “aprender a aprender” e ser competente para conviver com a heterogeneidade. Reconhecer o outro, valorizar o ser humano, também se dispor a inquirir a respeito da alteridade, inserindo-se na realidade, sendo um agente transformador, que desenvolva a criatividade, rompendo com os paradigmas antigos, criando novos parâmetros de análise das diferentes experiências, trilhando novos caminhos para uma prática pedagógica inovadora, com uma organização do ensino diferenciada.
“VIVE LA DIFERENCE!”
Deveremos saber conviver com as DIFERENÇAS, deveremos nos ADAPTAR às diferenças! Mas como, se os preconceitos foram individualmente e culturalmente construídos? Esse é o grande desafio. Como nos diz Crochik (1997, p. 14), “quanto maior a debilidade de experimentar e de refletir, maior a necessidade de nos defendermos daqueles que nos causam estranheza”. Sigmund Freud – o pai da psicanálise – já havia nos mostrado – ainda no séc. XX – que o medo diante do desconhecido, do diferente, é menos produto daquilo que não conhecemos que daquilo que não queremos e não podemos reconhecer em nós mesmos através dos outros.
O primeiro passo de uma verdadeira equipe – e assim devemos trabalhar – é passar a ser chamada de “time”. Todos “lutando” por um mesmo objetivo, uma sociedade para todos dentro das escolas. Um time – independente de cor, raça etc. – tem de aprender a jogar para vencer, a participar, encorajando uns aos outros, passando a bola para que o outro acerte no gol – que no nosso caso é a integração. O gol é a superação do medo, e o desafio está em aceitar as diferenças. Assim a vitória é CERTA e a conquista é para entrar na história.
O cúmulo da exclusão: “NEGAR O AMOR”. Como falar em aceitar as diferenças sem falar do amor ágape, universal, cósmico – e sem falar da vida? A vida está ligada à ordem e a vida não existe sem troca e sem evolução. Vida é busca da evolução independentemente das nossas vontades. A certeza da mesma qualidade de vida está na liberação do “acúmulo” e no encontro da troca. Com todas as pessoas que interagimos devemos ter a esperança de que possamos, cada vez mais, humanizar o espírito e espiritualizar o humano. Uma vez que um espírito desumanizado é cruel e produz dores sem amores, o homem desespiritualizado, inevitavelmente, sofrerá transtornos psíquicos e/ou somáticos.
Pensando na educação inclusiva, vamos deixar de fazer o binário ou/ou e passaremos pelo processo misterioso e criativo do e/ou. Mas como atuar sem interferir? Temos padrões de interferências, princípios de empatia, mas o segredo da criatividade e da vontade livre transcende a tudo, não se pode responder, mas descrever. E a doença nada mais é do que um ato criativo da alma buscando vida.
Rever esses valores pode evitar retermos nossas emoções, desencadearmos sintomas e imediatamente criarmos uma alteração bioquímica que atinge o físico e o psíquico. E quem é o causador da situação? O indivíduo que nega a alma ou o amor? Os professores, os pais ou os alunos? É o medo!
A partir dessa consciência é que vamos lidar com o mundo e aprender a dar valor. As imagens que nos surgem não são singelas (puras), vêm sempre ligadas a outros conhecimentos e outros valores. Na educação inclusiva, é isso que acontece. Nossos valores mostram-se como focos, porque somos afetados por essas imagens (energia afetiva).
PURA EMOÇÃO
A afetividade é a energia que mobiliza todo nosso ser. É a afetividade que dá um colorido às nossas vidas. Ela deve ser HOLOTÍMICA (holo = inteiro, timus = humor – lembra humano, que vem de húmus = terra = íntimo), pois a pessoa experimenta a vida (afetividade global). O ser tem sempre algo para mostrar, o modo habitual de ser, que vem acompanhado do caráter (cara = face = como o ser se apresenta). A personalidade é o ser completo.
A afetividade também deve ser catatímica. É como a possibilidade se manifesta (contraria sua maneira de ser). Depende da experiência de cada um, dos complexos, da cultura. O melhor critério para nossas verdades será revelado numa experiência chamada “emoção ou afeto”, quando algo se mobiliza. Se mascararmos nossa própria verdade, nosso corpo conta. O afeto é que mobiliza nossa vida psíquica, nossos valores.
Não temos ideia de todas nossas possibilidades. E é bom que saibamos de uma coisa relacionada a crianças com problemas neurológicos: célula nervosa não se regenera, mas as que ainda não foram “apagadas” assumem o lugar, criando novos caminhos, novos circuitos internos, reorganizando-se. E somos as pessoas que intermedeiam essa reorganização, fazendo a troca.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Procuramos demonstrar a importância do vínculo afetivo no âmbito familiar e de sua manifestação no acompanhamento da criança em suas atividades na escola como gerador de progresso ou deficiências no processo ensino-aprendizagem.
Com embasamentos teóricos e práticos, pude concluir ser sumariamente importante a afetividade dos relacionamentos entre família-escola e educando.
Levando em consideração que a construção do conhecimento e os primeiros vínculos são indicados na família, deve-se registrar que nela se desenvolvem as primeiras aprendizagens formais quanto aos aspectos físicos, culturais, profissionais, entre outros, mas sobretudo as aprendizagens que perpassam os diferentes momentos da vida, de conflito e desenvolvimento, da infância e adolescência à fase adulta. É nela também que os pais transmitem a seus filhos seus conhecimentos, de acordo com as possibilidades psicológicas reais que possuem.
No caso da criança em idade pré-escolar, a família é, sem dúvida alguma, o principal agente socializador e a escola, por sua vez, dará continuidade ao processo.
Enfatizo que, durante a vida escolar do aluno, a família e a escola devem sempre caminhar juntas, pois somente por meio dos incentivos positivos, desenvolvidos nos contextos familiar e educacional, desenvolver-se-á satisfatoriamente o processo de aprendizagem.
Este trabalho tem como intuito possibilitar aos leitores oportunidades de reflexão e de conscientizar a respeito da interação família-escola, voltando-se para um olhar diferenciado às crianças em fase pré-escolar.
Esperamos que esse elo esteja sempre em fase crescente, voltado ao bem-estar da criança. Portanto, recomendamos maior reflexão sobre as necessidades afetivas da criança e as consequências delas advindas.
Não me importa que nível de consciência a respeito da educação inclusiva posso ter na unidade escolar onde ministro as minhas aulas, a comunidade onde estou efetivado – não me pode faltar vontade. Não me pode faltar preparo. Não me pode faltar técnica. Não me pode faltar formação continuada.
Estaremos de fato envolvidos com a temática da inclusão quando eu, dentro do meu campo de ação, não estabelecer nenhum rótulo. O cadeirante, o ceguinho, o downzinho, o gordinho, o careca, o homossexual etc. são seres humanos e possuem nome e sobrenome.
Falamos também da importância do COMPROMISSO e ATENÇÃO, para que nenhuma ou quase nenhuma situação experiencial na sala de aula se perca.
Não me importa o formato de família que foi o escolhido – não pode faltar AMOR.
Que no futuro tenhamos menos PERITOS e sim TESTEMUNHAS.
REFERÊNCIAS
ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis: Vozes, 2003.
CROCHÍK, J. L. Ideologia da racionalidade tecnológica e personalidade narcisista. Instituto de Psicologia da USP, 1999.
DURHAM, E. R. . A autonomia em xeque:novos estudos. CEBRAP, São Paulo, v. 71, p. 13-75, 2005.
FREUD, S.(1959) Introdução ao narcisismo. Rio de Janeiro: Delta, 1959. (Obras Completas de Freud, Vol. VII.)
TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Tradução de Elia Ferreira Edel. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
[1] Mestre em Educação. Consultor Humano e Educacional. Escritor e Palestrante. Autor do Livro “Inclusão: mais que um desafio escolar, um desafio social” ISBN: 85-902437-7-X – JairodePaula Editora, 2004 .
[2] Texto adaptado de documento originalmente elaborado em 1996 pelos Conselheiros Bernardete Angelina Gatti, Francisco Aparecido Cordão, José Mário Pires Azanha, Marisa Philbert Lajolo e Pedro Salomão José Kassab, apresentado ao Conselho Pleno, em sessão solene de 07-08-96.
______________________________________________________________________________________
0 comentários:
Postar um comentário